Março 11 2011

 

 

Poeta e Escritor premiado Frei Benjamin Sanchez Espinosa, com o peseudônimo de Frei Asinello, mora em Jalisco, no México. É o autor deste Poema, que para mim é o mais lindo que já li sobre a Via Sacra de Jesus.

 

 

 

ROMANCEIRO DA VIA DOLOROSA POR FREI ASINELLO

 

I ESTAÇÃO

 

JESUS É CONDENADO A MUERTE

 

 

 

Te condenaram à morte

 

teu silêncio e meu silêncio.

 

As gargantas em tumulto

 

diante do Pretor sonolento,

 

lapidaram com seus gritos

 

o mármore de teu silêncio...

 

Fala, Jesus, que te matam!

 

Embrulhada em teus silêncios

 

a morte vem voando

 

entre grasnidos de corvos.

 

Fala, Senhor, tua palavra,

 

como um furacão de fogo,

 

saia de tua boca e queime

 

o falso dos desonestos!

 

Por que ficas calado

 

se és o Divino Verbo...?”

 

A boca de Deus ficou

 

baldia como o deserto.

 

O condenaram à morte

 

seu silêncio e meu silêncio.

 

Esculpiram as gargantas

 

alaridos ao meu medo.

 

À

sondas

de gritos

 

devia levantar meu peito

 

-dique de amor e diamante-

 

contra a torrente obstinada.

 

Porém fui areia medrosa

 

que não supus defendê-lo.

 

Devia gritar-lhes: “Judeus,

 

eu sou, eu sou o perverso;

 

a mim o fel, os espinhos,

 

a mim a cruz e o flagelo!”,

 

porém anulou minha voz

 

a vil serpente do medo.

 

Pastores, por covardia

 

mataram meu Cordeiro:

foi mais forte que meu amor

o latido dos cães...!

O condenaram à morte

seu silêncio e meu silêncio:

um, silêncio de amor;

outro, silêncio de medo

 

II ESTAÇÃO

 

JESUS SE ABRAÇA COM A CRUZ

 

Acerca-te, Bem-amada,

com os dois braços abertos

A ti corro enamorado

como um ciclone, de desejos.

Tenho sede de teu regaço para morrer em silêncio.

Amada, a pressentida

desde os montes eternos,

a eleita pelo Pai

para o Varão Unigênito,

és morena de sol

e tens olor de cedro,

eu porei sobre teus ombros

o linho em flor de meu corpo

e um manto vermelho, preso

com cinco rosas de fogo:

divino traje de bodas

no abraço supremo!

Vem aos meus braços, Amada,

com os dois braços abertos.

Debaixo da noite do ódio

iremos pelo caminho

relampagueante de gritos

e enraizado de tropeços:

que o amor sempre caminha

por sendas de sofrimento.

Quando estamos no cume

unidos os dois e quietos,

em holocausto enfumaçado,

transverberados de fogo,

uma nova epifania

alumiará terra e céu

Serás chamada senhora

e Mãe de muitos povos.

Virão a ti com seus dons

os reis do mundo inteiro.

Com teus braços estendidos

serás rosa dos ventos

que conduza caminhantes ao meu Coração aberto.

Os que a Mim queiram vir

terão que amar-te primeiro...

Saiamos já, Bem-amada

com os dois braços abertos.

III ESTAÇÃO

DEBAIXO DO PESO DA CRUZ JESUS CAI

 

Dizei-me quem me beijou

com uns lábios de fogo....

Muitas vezes tenho sentido

o ósculo do inverno.

Seus lábios -flocos de neve-

ao cair brancos e lentos

me vestem com a pureza

dos glaciais eternos:

são um batismo de graça

que me renova por dentro.

Ao chegar a primavera

florida pelos outeiros,

a fecundidade desperta em meus entorpecidos seios.

Com suas papoulas vermelhas

como me cobre de beijos,

e cascavéis de espigas

e música de rouxinóis!

Porém nunca conheci

um beijo como este beijo:

me deixou mais branca

que as altas geleiras

e me tornou mais fecunda

que os jardins do céu!

Dizei-me quem me beijou

com uns lábios de fogo.

Que doce, quando o estio

com seus lábios de aguaceiro

deixa o canal de minhas tranças

estrelado com seus beijos,

e minhas areias febris

ungidas de refrigério!

Que triste o beijo de outono,

quando, ao impulso do vento,

beija com suas folhas secas

a prata de meus caminhos

e me deixa na garganta

sabor de morte e de duelo!

Porém nunca conheci

um beijo como este beijo:

tão pleno de suavidades,

de tristeza e de mistério...

Eternos lábios feridos,

divinos lábios de fogo

que, queimando, purificam

e servem de refrigério;

lábios de Cristo, caído

no caminho tremendo,

à Terra, vossa escrava,

assim a tratais, com beijos ... ?

Oh lábios, eu não sou digna,

porém.... beijai-me de novo!

IV ESTAÇÃO

JESUS SE ENCONTRA COM SUA MÃE

 

Cristo, meu Menino,

para onde vais?

Maria, Mar de lágrimas,

quem te dirá?

Pezinhos como lírios

que em meu regaço cresceram,

por que levais o meu menino

por tão ingratas veredas:

tapetes: charcos de sangue,

sandálias: chagas de fogo?

Mãozinhas de jasmins

que em dezembro floresceram,

por que vos afastais crispadas

sobre esse escuro madeiro

e nem podeis despedir-se de mim, perfumando, ao vento?

Cristo,

meu Menino,

para onde vais?

Maria, Mar de lágrimas,

quem te dirá?

Oh cabeça de meu Menino

que dormiu sobre meu peito,

negros espinhos te cingem,

já não dulcíssimos beijos,

dor e pranto te arrulham,

já não

tem cantos maternos!

Oh punhadinho de mirra

que perfumaste meu seio

Por que vais com esses homens

e a mim me deixas gemendo?

Eu, por Ti, dera minha vida,

eles... dão trinta dinheiros!

Cristo,

meu Menino;

para onde vais?

Pobre Maria, Mar de lágrimas,

não te cansas de chorar.

V ESTAÇÃO

O CIRINEU AJUDA JESUS LEVAR A CRUZ

 

Eu serei teu cirineu,

Tu, Jesus, serás o meu.

És do mesmo barro meu,

Deus suado e ferido,

te faltam muitas caídas

para chegar ao patíbulo.

Tua vida pode quebrar-se

à metade do caminho,

e se morres nessa hora

nos deixas sem crucifixo,

sem testamento, sem Mãe,

sem o Refúgio Divino

de teu Coração, aberto

pela lança de Longinos...

Tens que chegar ao altar

morto de dor... e vivo;

se te oprime muito o peso

de teu amor e meus delitos,

eu serei teu cirineu...

Vamos ao Sacrifício!

E depois, quando na vida

se mudam nossos destinos,

quando Tu, ressuscitado

todo embalsamado e limpo

me esperas nos trigais

vivo mas escondido,

e eu cruzo diante de teus olhos

feito tremor e martírio,

levando minha cruz às costas,

de dor esmorecido,

Tu serás o cirineu

que me leva ao Sacrifício.

És, como eu, de barro;

faz-me, como Tu, de trigo;

expreme-me sobre o monte

como maduro racimo;

e os dois, compenetrados,

feitos de farinha e de vinho,

no cume amanecido

seremos um Sacrifício.

VI ESTAÇÃO

VERÔNICA ENXUGA O ROSTO DE JESUS

 

Assim quero que me pintes

sobre meu peito teu rosto.

No presépio, de menino,

eras estrelinha de ouro;

de jovem, entre os lírios,

o mais fragrante de todos,

debaixo dos sóis maduros

parecias o mais formoso;

mas hoje quando todos dizem

que não tens nem decoro,

é quando eu gosto mais:

és o Divino Rosto!

Assim quero que te pintes

em minhas entranhas muito profundo,

com pinceladas de sangue,

de salivas e de pó;

roxo de bofetadas,

empalidecido de opróbrios.

Me enamoras como nunca

porque em teu rosto conheço

todo o amor que me tens

aceso e doloroso.

Meu coração é o lenço

para que pintes teu rosto.

Em Ti quero retratar-me

como um espelho no outro.

Que não me faltem espinhos

nem lágrimas nos olhos,

nem suor, nem bofetadas,

nem manchas de sangue e lodo!

Com tanto que a Ti me pareça,

sofrer me parece pouco.

VII ESTAÇÃO

JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ

 

Quem tirou o Pão dos filhos

para dá-los aos cães?

Vivo Floco de farinha

caído sobre a vereda,

Pedaço de pão cozido

em fornos de sofrimento,

Migalhinha deslizada

desde o regaço paterno,

para cair no pó

desceste dos céus?

Escândalo dos filhos,

Ludíbrio de todo o povo,

assim queres que te comam

os ricos, os opulentos?

És tão pouquinha coisa,

estás tão sujo e tão feio

que nem o filho mais humilde

nem o mendigo mais faminto

se dignariam inclinar-se

por recolher-te do solo.

Quem tirou o Pão dos filhos

para dá-lo aos cães?

Eu bendigo tua caída

que infunde atrevimento.

Com lágrimas e tremores

de ternura a Ti me acerco.

Eu sou o pobre cachorrinho

perfurado de fome e de medo.

Se não tivesse caído,

como chuva, em meu deserto,

cheio de angústia e miséria

Eu morreria sem remédio.

Estavas, oh Deus, tão alto

e eu tão vil e pequeno!

Debaixo de teu traje de pó

escondido, te apresento

tão cheio de resplendores

como na glória do céu.

Se os homens não te querem,

vem, e descansa em meu peito.

Migalha de pão caído

para a fome dos cães:

o amor que me tiveste

te pôs em tais extremos!

VIII ESTAÇÃO

JESUS CONSOLA ÀS PIEDOSAS MULHERES.

 

Não quero chorar por Ti:

quero chorar meus pecados.

As almas vem seguindo

a púrpura de teus passos;

todas querem consolar-te

e todos vem chorando!

eu, Senhor, mesmo que te vejo

todo de Amor chagado,

não quero chorar por Ti,

oh Divino Enamorado.

Eu sei que por fora sofres,

mas, por dentro, estás gozando,

porque o Amor, quando fere,

é como aroma de bálsamo

que quanto mais nos traspassa

é mais suave e delicado.

As feridas de amor tem sabor

de mel e cheiram a nardo.

Por que então, sem querê-lo

vão minhas lágrimas brotando?

Senhor, não choro por Ti:

mas choro por meus pecados!

Não choro por ver-te ferido,

choro por haver-te esquecido.

Deixa-me chorar, Senhor,

para sempre, sem descanso.

Deixa-me chorar, Senhor,

-chuva de pétalas brancas-

de meus olhos doloridos

caiam as gotas de pranto,

e lavem com sua brancura

o negro de meus pecados.

Teu amor e eu, frente a frente,

a sós, os dois estamos;

e meus dois olhos te dizem

o que não pode meu lábio.

Veja quebrado a teus pés

meu coração de alabastro,

tão duro para querer-te,

para esquecer-te, tão brando!

vejo como, da ferida

mana o olor de meus nardos...

Teu amor e eu, frente a frente,

a sós, os dois estamos.

Os dois, com a alma rota;

os dois, transidos de bálsamo.

E teus dois olhos me dizem:

"Muito se te há perdoado"!

 

 

I

X ESTAÇÃO

JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ

 

Triplicaste tua caída

entre soluços e lágrimas.

A magnólia de tua veste

jaz em terra, despojada

e o caudal de teus cabelos

-fonte de águas limpas-

sobre as pedras desnudas

dormindo, se esparrama ...

Que desfalecer do corpo,

que desalento na alma!

Quanta sede de abandonar-te

e não prosseguir a marcha,

suspender eternamente

o ritmo das pisadas!

Por que um grito me sobe

temeroso à garganta

um grito para gritar-te:

"Jesus levanta-te e anda"?

Porque outras muitas caídas,

tuas três caídas retratam:

o espanto dos meninos

caídos de madrugada

o colapso dos jóvens

desde os cumes nevados,

as caídas dos velhos

tão negras e tão amargas....

Porque mil negras pupilas

ansiosas em Ti se cravam

para ver se ficas caído

ou ver se te levantas

por isso minha voz te grita:

"Jesus, levanta-te e anda".

Levanta-te mesmo que o cansaço

se derrame em tuas entranhas

Levanta-te, mesmo que o suplício

com vivos incêndios te aguarda.

Levanta-te, que a meta

já se vê muito perto"

Ensine aos homens

essa ciência necessária

de ressurgir varonis

quando no caminho caiam.

Se Tu ficas caído

derrubas nossa esperança.

Somos flores dos campos

que até um sopro desenraíza,

e é tão fácil que na vida

se fique caída a alma,

quando há sentido o abraço

lamacento dos charcos

que oferecem lótus de ouro

e víboras aninhadas!

E é tão duro levantar-se

para prosseguir a marcha

quando nas veias há frio

e anoitece nas entranhas....

Jesus, pelos pecadores

minha voz te grita angustiada,

por nós pecadores,

Jesus, levanta-te e anda!

DÉCIMA ESTAÇÃO

JESUS É DESNUDADO E EMBEBIDO COM FEL E VINAGRE.

 

Assim, desnudo,

meu Deus,

que pena me dá olhar-te,

escultura, de vergonha

cinzelado em neve e sangue!

Tens todo o desamparo

de nossos Primeiros Pais,

ao esconderem-se chorosos

e desnudos atrás das árvores

com o sabor do pecado

amargando-lhes as goelas.

Também há entre teus lábios sabor de fel e vinagre:

amargura de pecados que, sem bebê-lo, provaste.

As flechas dos olhos e dos risos irreverentes

sobre teu corpo desnudo voando vão cravar-se.

Oh se pudesses correr, como um menino,

até tua Mãe, e esconder-te entre seus braços,

e em seu regaço aninhar-te!

E onde estarão agora aqueles

panos limpos

da luminosa noite;

a

onde os lírios do vale

tecem túnicas brancas

sem rugas e sem teares;

onde estão os corderinhos

vestidos de lã suave

que te veem a Ti desnudo

e não correm a abrigar-te?

Porém,

vistes

bem,

que importa se os soldados repartem

entre si tuas vestes cheias de suor e sangue?

Tens oh Deus, uma túnica

que ninguém poderá arrancar-te:

a túnica de teu corpo que te tecera tua Mãe

no tear de seu seio com o linho de sua carne.

Dessa veste, nem a morte poderá jamais despojar-te!

Olha, Senhor, a minha alma também desnuda e sangrante:

se jogaram os dados entre o Demônio e a Carne

minha túnica d

e

graça em frenética algazarra,

enquanto o Mundo via minha angústia

sem inalterar-se....

Não me deixaram nem o manto

para cobrir minhas maldades!

e ante os olhos do mundo,

tão cruéis e tão covardes,

ser pecador descoberto

é ser duas vezes culpado.

Como doem os olhares

que em mim vem cravar-se!

Que amargas são estas culpas de cinza e de vinagre!

E como entrarei desnudo em teus festins nupciais?

Se vem o Rei e vê me lançarem à rua....

Quando tu s

ob

es glorioso,

pelos caminhos do ar,

reveste-te com tua veste

de fogo santificante;

reveste-me com a túnica inconsútil de teu sangue.

E assim, vestido de Cristo, cheio de claridades,

enquanto os anjos cantam

o cântico dos cânticos,

irei fundir-me

no regaço oceânico de teu Pai.

 

 

 

DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO

JESUS É CRAVADO NA CRUZ

 

És a Rocha da luz

com entranhas de água nova;

nós somos o barro

amassado com trevas.

Há em teus claros abismos

mananciais de vida eterna;

nós temos sede

em nossas áridas veias.

Nossa sede é infinita,

nossa secura, tremenda;

o ardor dos desertos

em nossas almas, chamas.

Reflexos de loucura,

na mente reverberam

e sobe um grito de fogo

desde as entranhas secas.

Nos íntimos jardins

se requeimou a açucena,

e a rosa enamorada,

de sede, caiu morta.

O ouro doce do trigo

voa ao ar feito faíscas

e as vinhas debaixo de um céu de fogo

crepitam sedentas....

Assim, sem vinho, sem rosas,

sem pão e sem açucenas,

e com este fogo escuro

que se arrastra pelas veias,

que vida pode viver-se?

que morte será mais negra?....

És a Rocha que guarda

Torrentes de vida eterna;

nós somos a sede

coagulada da terra.

Será preciso que o homem,

num instante de demência

fure sem compaixão a nobre Rocha serena..

Se não podemos viver,

se estão nossas almas secas....

Estende teus pés e mãos

em cruz sobre o madeiro

e deixa que nossos golpes

penetrem em tuas artérias.

Já sai escorrendo o sangue

aos canais da terra,

em divina tranfusão

de tuas veias para suas veias.

Já se apagam nossos fogos

nestas águas eternas

já torna a lançar a vida

sua canção nas artérias.

Quando em teus membros exangües

caia a noite suprema,

um amanhecer de lírios

alumiará as pradarias.

E nascerás repetido

nas castas açucenas,

e estarás em cada rosa,

quando as rosas florescerem,

e quando no doce racimo

seu jugo no cálice verta,

ali beberão os homens

sorvendo de teu sangue novo;

e quando o trigo maduro

se triture entre as pedras,

em cada pão falaremos

do sabor de tua presença.

Porque teu sangue corre

por nossos canais de terra;

se eterniza entre os homens

tua invisível permanência:

 

nós em Ti vivemos,

 

Tu vives em nossas veias!

 

DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO

 

JESUS MORRE NA CRUZ

 

Pródigo, o das mãos vazias.

 

Aonde veio parar

 

toda tua glória divina,

 

Oh meu Deus, encarcerado

 

num cárcere de argila!

 

Tu que enches os abismos

 

com tua presença infinita

 

cabes entre quatro cravos

 

e uma coroa de espinhos?

 

Deixaste o seio do Pai

 

pelo seio de Maria?

 

Do céu fugiste trazendo

 

toda tua herança divina:

 

a deste aos pecadores

 

e às mulheres perdidas.

 

O suco das romãnzeiras

 

coroou tuas senes limpas

 

com sua loucura de fogo

 

debaixo do sombrio

 

jardim

 

e assim saíste, embriagado,

pela clara manhãzinha,

a desperdiçar teus tesouros

com amor e sem medida.

Tuas mãos foram semeando

sua chuva de rosas lindas

no sulco azul do ar

sobre as terras baldias....

Já estás aí,

com as mãos rôtas

,

na cruz sobre a colina;

que te fica já para dar

de tuas riquezas divinas?

Por ter as mãos r

ô

tas

te ficaram vazias.

Junto a teu Pai,

na luz inacessível vivias;

hoje estás entre trevas

como uma estrela caída

Em teu palácio,

uma multidão de arcanjos te servia;

hoje estás entre mulheres que choram

e homens que gritam.

Antes eras o Ungido,

com bálsamo de alegria;

hoje navegas num mar

de tristeza sem margens.

Disseste que entre os homens

viver era uma delícia;

e não há dor comparável

a tua tremenda agonia....

Pródigo de mãos r

ô

tas...

e és a Sabedoria!

Oh Cisne de Deus que cantas

à morte pressentida,

já vão tuas sete palavras cantando na ladainha ....

Que esperas para que saia de teu coração a vida?

Volte para tua casa, Pródigo, o de mãos feridas!

Em seu palácio teu Pai,

o Grande Ancião de dias,

perscrutando as veredas com suas eternas pupilas,

espera já teu retorno pelas sendas florescidas.

As lâmpadas do Paráclito

ornadas de sempre vivas

para iluminar teus passos

também estão acesas....

Mas, já sei o que esperas

para que volte tua vida,

pelo túnel da morte,

às mansões divinas:

buscas a quem dar

teus cravos e tuas feridas;

e buscas outra cabeça

para por teus espinhos.

Dá-mos, Senhor,

ansiosos, por recebê-los,

esperam meus pés,

minhas mãos e minhas senes doloridas!

ante tua suprema dádiva

está minha fé de joelhos.

Eu subirei, sobre o monte

ao ficar tua cruz vazia,

e dormirei com meus sonhos

sobre teu leito de mirra.

Aí deixarei que irrompam

minhas cascatas dormidas,

para completar em meu corpo

tua paixão interrompida.

Porém já volta,

meu

Deus,

à mansões divinas.

Volta a acender nos lábios

de teu Pai, o sorriso.

Venha desatar as fogueiras

do Paráclito, cativas.

Venha devolver aos céus

sua inextinguível alegria:

se tudo está consumado,

se já tens outra vítima!

DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO

JESUS É DESC

IDO DA CRUZ E POSTO NOS BRAÇOS DE SUA MÃE

 

Meu Jesus está sonhando,

pelo caminho

 

dormiu

três vezes o pobrezinho.

Filhinho, dorme, dorme,

 

que nesta noite,

 

não haverá quem te desperte.

 

De manhãzinha, chorando,

 

pelos caminhos do céu,

 

Saiu meu menino a buscar

 

seu rebanho de cordeiros.

 

Todos andavam perdidos

 

entre os barrancos negros....

 

Num bosque de alaridos

 

e braços

tensos, no alto,

entrou meu Menino tremendo

 

de solidão e de medo....

 

As flores eram de sangue,

 

as ramas eram flagelos,

 

as maldições, voavam,

 

como pássaros, ao vento.

 

Era tão largo o caminho,

 

estava o ar tão negro,

 

que meu Menino caiu

 

três vezes na vereda;

 

e quando aos olhos d'água

 

se acercou a beber sedento

 

lhe deram a beber mirra

 

aqueles cruéis algozes!

 

Por fim subiu meu Menino

 

Sobre as ramas de um cedro

 

para ver se das alturas

 

divisava seus cordeiros.

 

Seu sétuplo canto triste

 

rodou pelo Universo.

 

Como um pardalzinho

 

todo púrpura seu peito,

 

ficou meu menino dormindo

 

sobre as ramas do cedro;

 

as nuvens acariciavam

 

com devoção os cabelos.

 

Adormecido o encontraram

 

no caminho do céu,

 

e dormindo, nos meus braços,

 

de noite, me trouxeram

 

Tem em seus pés dois cravos,

 

em suas mãos dois luzeiros

 

e em seu Coração um Sol

 

três vezes santo e aberto.

 

Filhinho, que entre meus braços

 

jazes cansado e desfeito,

 

dorme sem ansiedades

 

por teus perdidos cordeiros

 

Nesta noite de lua

 

os

tem juntado no céu;

pela imensidão azul

 

vagam cândidos, pastando,

 

entre rosas imortais

 

e remansos de luzeiros.

 

Inumeráveis e puros,

 

como os flocos de inverno,

 

de todos os horizontes

 

ascendem no firmamento

 

Quando a luz te desperte

 

já sem dor e sem sonho,

 

oh como haverás de alegrar-te

 

por teus encontrados cordeiros.

 

Filhinho, que entre meus braços

 

jazes desnudo e desfeito,

 

segue dormindo, no berço

 

de meu amor e de meus beijos....

 

Estes beijos são os úItimos

 

mas meu amor é eterno.

 

Segue dormindo em meus braços,

 

mesmo sabendo que teu sonho

 

é espada de dois fios que

 

me traspassa por dentro....

 

Dorme que para velar-te,

 

está minha dor desperta.

 

Meu Jesus está sonhando,

 

pelo caminho

 

dormiu

três vezes o pobrezinho.

Filhinho dorme,

 

dorme, que na alvorada

 

virá a luz divina que te desperte.

 

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO

 

O CORPO DE JESUS É DEPOSITADO NO SEPULCRO

 

 

Menina que levas ao peito sete punhais cravados,

Mãe que vais a semear

a Deus debaixo das romãzeiras:

já vem os semeadores,

com a semente, chorando;

já trazem o corpo de Cristo

branco sobre o linho branco.

Senhora, eu não queria

nem olhar-te nem olhá-lo

Tu me o entregaste menino

como broto de nardos;

eu devolvo morto

como um racimo pisado.

Traz muita noite nas veias

e muita neve nos lábios.

Se lhe congelou a vida

no Coração quebrantado....

Senhora, eu não queria

nem olhar-te, nem olhá-lo.

Vem e desfolhe a última flor

de teu beijo em seus lábios

e deixa que o semeemos

neste sulco de pranto.

quem sabe se já de manhã

conhecemos o milagre

de que retomem as doces

batidas em seu costado!

Se é um augúrio de espigas

a morte de cada grão,

se está a ressurreição

debaixo da tumba esperando

por que semear aos mortos resultará

tão amargo?

Que dilúvio de silêncio

se vazou sobre os campos....

A solidão, com suas águas,

cobriu os montes mais altos!

Menina que levas ao peito

sete punhais cravados:

debaixo no sepulcro,

deixaste teu coração, esquecido....

Por que floresce o silêncio

como um inaudito cântico?

quem se põe a cantar

quando homens choramos?

Senhora, os mortos cantam,

os mortos estão cantando!

Entre as sombras agitam

o címbalo de suas mãos:

que também para os mortos

chegou o Domingo de Ramos.,

Já vai o Senhor descendo

por caminhos subterrâneos

de todos os cemitérios

sobe um clamor a seu passo

enquanto se impregna de vida

a terra, com seu contato.

Um sopro de primavera

sacode os ossos áridos

e retrocede a Morte

entre as tumbas gritando.

Aonde está tua vitória,

oh morte de dedos pálidos?

Já vão debaixo dos ciprestes

as semprevivas brotando....

Mãezinha que semeaste a Deus

debaixo das romãzeiras:

sobre o arco de tuas lágrimas

tem florescido os cânticos;

amanhã, quando o luzeiro

da aurora beije tuas pálpebras,

a terra dará seu fruto

imortal e perfumado....

Então, cerra teus olhos,

então, abre teus lábios

para que bebas o vinho

do Filho ressuscitado.

 

 

 

publicado por emtudosomenteavontadededeus às 13:35
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